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Covid-19: Impactos no imobiliário

Paulo Silva, Head of Country da Savills em entrevista à Diplomatic & Business Magazine

No lançamento da publicação periódica “Impacts” da responsabilidade da Savills, os seus responsáveis identificaram vários tópicos que teriam cabimento na mesma, tais como: as alterações climáticas, demografia, tecnologia, entre outros, nos quais a pandemia não estava incluída.

No entanto, este Cisne Negro, impactou significativamente as nossas vidas nos últimos meses e poderá impactar futuramente o imobiliário de uma forma que procuraremos antecipar.

Os sectores que se mostraram mais resilientes foram claramente: o residencial (fomos maioritariamente mandados para casa), o retalho ligado à distribuição (supermercados) e a logística (havia que fazer chegar aos poucos pontos de venda autorizados os bens necessários e às casas aqueles que não estavam disponíveis nestes). Por outro lado, aqueles que mais sofreram tiveram a ver com o que mais foi afectado pela mobilidade: hotelaria e retalho (rua e centros comerciais). Os escritórios ficaram entre estes extremos.

Começando pelos escritórios, quando demos conta, uma grande maioria dos efectivos das empresas dos principais países ocidentais estavam a trabalhar desde casa. Planos de adaptação ao trabalho desde casa foram antecipados e outros, não existentes, foram criados e implementados com grande sucesso.

Parecem-nos claramente exageradas, no curto/médio prazo, as leituras extremas que sobrevalorizam o movimento de deslocação dos locais de trabalho para as casas. No entanto, está aberta a discussão para a descentralização dos escritórios entre um modelo hibrido de trabalhar em casa, hubs e/ou nos escritórios; sendo certo que os escritórios, dentro de uma tendência que já se fazia sentir e se irá acentuar, deverão ser cada vez mais atractivos e proporcionadores de bem estar a quem os utiliza.

A abordagem à Logística torna-se difícil de fazer colocando de parte o Retalho. Com efeito o crescimento do Retalho online fez crescer a importância da Logística, sendo hoje um dos segmentos de mercado mais procurados pelos investidores. As cadeias de distribuição têm vindo a sofrer uma alteração, que em termos imobiliários se tem traduzido numa diminuição da importância do Retalho a favor da Logística, que se tem acentuado cada vez mais. A diversificação das cadeias de distribuição irá verificar-se e o objectivo de reduzir a distância para os mercados consumidores poderá encontrar no correspondente acréscimo de custos para o consumidor um entrave ao seu desenvolvimento. O crescimento do retalho online não ditará a morte do retalho de rua. Neste, a exemplo dos escritórios, coloca-se aos operadores, na sua relação com os seus cientes, o mesmo desafio que se coloca às empresas na sua relação com os seus colaboradores atrás referida, a necessidade de criar espaços atractivos e diferenciadores que melhorem a experiência dos seus clientes, proporcionando nessa medida um incentivo à visita.

Os Hotéis foram o sector claramente mais afectado pela pandemia. Nestes vamos assistir a uma recuperação inicialmente lenta e em muito dependente da diminuição das restrições às viagens e da recuperação da confiança nestas e nas estadias, havendo lugar para um efeito de substituição de viagens para o exterior (de um País para outro) por viagens pelo interior (dentro de um País).

As viagens ligadas aos negócios poderão registar uma diminuição, por força da eficiência da experiência evidenciada pelos meios tecnológicos, os quais tendencialmente irão optimizar a sua experiência para os seus utilizadores.

Entendemos que os demais factores que induzem a procura de Hotéis, no longo prazo, permanecem inalterados.

No segmento residencial, estamos na presença de uma perspectiva muito favorável, para o investimento em produtos de arrendamento, com qualidade, que no primeiro trimestre de 2020 já representaram 20% do investimento imobiliário europeu.

Os produtos residenciais que mostrarem uma melhor solução da combinação de trabalho e lazer serão claramente diferenciadores, e nessa medida valorizados, pelos utilizadores finais, num quadro global de avaliação em que a existência de espaços exteriores também será valorizada, tendo em conta algumas experiências traumáticas resultantes do confinamento.

Os últimos meses revelaram, apesar dos desenvolvimentos tecnológicos e sociais, a nossa fragilidade, através do impacto da força mais ancestral, uma pandemia sanitária, na forma como vivemos e trabalhamos. Resumindo, nada será como antes e nada será significativamente diferente do existente, especialmente se tomarmos em linha de conta os ciclos de produção dos activos imobiliários.

Espero que encontrem neste artigo uma motivação para aprofundar estes temas através da leitura da nossa revista Impacts The future of global real estate, publicada no passado mês de Maio.

 

Fonte: Diplomatic & Business Magazine

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