O peso do investimento transfronteiriço no mercado europeu de escritórios continua a crescer. As compras feitas por investidores de fora do país onde se localizam os imóveis correspondem já a 39% do volume transacionado este ano, contra 36% em 2025, segundo o relatório European Office Investment Q3 2026, da Savills, com base em dados da Real Capital Analytics (RCA). O valor fica ainda abaixo do máximo de 54% registado em 2019, sobretudo devido à menor entrada de capital da Ásia-Pacífico.
Lisboa acima de Madrid e Barcelona
Em Lisboa, a yield prime de escritórios, que mede a rentabilidade dos melhores edifícios, subiu 0,40 pontos percentuais no terceiro trimestre, para 5,00%. Foi a segunda maior variação entre as cidades analisadas no relatório, a seguir a Lyon, e superou a média europeia, que aumentou 0,13 pontos, para 5,1%. A capital portuguesa mantém uma rentabilidade superior à de Madrid e Barcelona, ambas nos 4,40%, e está agora ao nível de Bruxelas. Segundo o relatório, os investidores dão hoje mais peso ao crescimento económico, o que explica que a Península Ibérica e a Europa Central e de Leste concentrem uma fatia do investimento acima da média histórica.
Frederico Leitão de Sousa, Head of Offices da Savills Portugal, comenta a evolução do mercado de Lisboa: “A subida da yield prime de escritórios em Lisboa para 5,00% reflete o ajustamento das expectativas de rentabilidade dos investidores à evolução das taxas de juro e das yields soberanas europeias, numa altura em que o capital é aplicado de forma mais seletiva. Esta evolução não põe em causa os fundamentos do mercado português, que beneficia de uma economia resiliente e de uma procura forte das empresas por espaços de qualidade. A oferta de edifícios Grade A é limitada e as perspetivas de crescimento das rendas são favoráveis.
Acreditamos que esta combinação de fatores vai continuar a atrair investidores internacionais para Portugal, em particular para imóveis bem localizados e adaptados às necessidades atuais de quem os ocupa.
Os escritórios corresponderam a 5% do investimento em imobiliário comercial em Portugal no primeiro semestre, e a atividade está condicionada sobretudo pela escassez de ativos prime disponíveis, mais do que pela falta de procura. Quando as expectativas de preço de compradores e vendedores se ajustarem ao novo custo do financiamento, a liquidez poderá recuperar de forma gradual e criar oportunidades no mercado de escritórios.”
Quem compra na Europa
No conjunto da Europa, a procura assenta em investidores com perfis diferentes. Na Suécia, a Alecta comprou uma carteira de escritórios em Estocolmo por 451 milhões de euros. Em Paris, o edifício Capital 8 passou para as mãos da Pontegadea, sinal de que o capital privado continua ativo na compra dos melhores imóveis. As SCPI, sociedades francesas de investimento imobiliário abertas a pequenos aforradores, apostam em novos mercados na Europa Central e de Leste, e algumas estudam já a entrada na Escandinávia.
Este interesse coincide, no entanto, com o aumento do custo do financiamento. Entre julho e setembro, os juros da dívida pública europeia subiram, em média, 0,8 pontos percentuais, com a inflação e a guerra entre os Estados Unidos e o Irão. A subida refletiu-se nas yields prime de escritórios, que aumentaram 0,25 pontos em Paris CBD, Bruxelas, Varsóvia, Manchester e Londres, e 0,50 pontos em Lyon, para 6,00%. Estocolmo seguiu o caminho inverso, com uma descida de 0,15 pontos, para 3,75%, sustentada pelo capital nacional interessado nos melhores ativos.
A tendência deverá manter-se. O relatório prevê subidas das yields prime de 0,10 pontos percentuais ou mais em 68% dos mercados europeus de escritórios, quando há três meses essa previsão abrangia 26%. Ao custo atual, o crédito deixou de acrescentar retorno, e a qualidade e a segurança das rendas passam a estar no centro das decisões dos investidores.
Para James Burke, Director, Global Cross Border Investment da Savills, são as rendas que vão sustentar o interesse pelo setor: “Os mercados onde as rendas continuam a subir vão manter os escritórios europeus atrativos para os investidores. Há pouca oferta e as empresas procuram edifícios de melhor qualidade, o que abre oportunidades para renovar imóveis nos centros de negócios ou perto deles, numa altura em que construir de raiz ainda não compensa na maioria dos casos. Além disso, nos principais centros económicos, o emprego nos serviços às empresas, na tecnologia e nas finanças está a crescer, e mais trabalhadores significam mais necessidade de espaço de escritório.”
Mike Barnes, European Office Research Director da Savills, sublinha que a confiança do mercado começou a recuperar: “O mais recente barómetro do INREV, a associação europeia do setor dos fundos imobiliários não cotados, mostra que a confiança dos investidores melhorou no terceiro trimestre, depois da fase inicial do conflito entre os Estados Unidos e o Irão, embora continue abaixo dos 50 pontos, o nível a partir do qual o indicador aponta para expansão. Nos escritórios, a confiança subiu 15 pontos percentuais em três meses, com o apoio da procura de espaço por parte das empresas e das perspetivas de subida das rendas.”