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O Mercado Imobiliário no Pós-COVID

Entrevista de Paulo Silva, Head of Country, Savills Portugal ao Confidencial Imobiliário (Maio 2020).

As crises económicas, como as pessoas, têm a sua individualidade. A que vivemos apresenta características que a diferenciam substantivamente da última vivida, a do sub-prime, sendo que gostaria de destacar três.

A primeira prende-se com a sua origem, que não tendo uma justificação económica, mas de natureza viral, provocou a económica, enquanto que no passado o imobiliário esteve no epicentro da tempestade. Encontramos uma segunda característica diferenciadora na sua transversalidade geográfica. De uma forma geral todos os países a sofreram, com maior ou menor impacto e, expectavelmente, no final da questão virológica, não vamos estar na presença de países a evitar no respeitante a questões de investimento, como aconteceu no passado. Lembram-se dos PIGS, em que nós eramos o P? A terceira característica prende-se com a disponibilidade de capital para investir, num contexto em que não é previsível um risco de colapso dos sistemas financeiros.

Tendo dito isto, facilmente concluímos que a resiliência que o mercado imobiliário nacional irá mostrar neste contexto será claramente diferente, para melhor, da mostrada no passado, por força das circunstâncias.

Iremos assistir a uma contracção das transacções, decorrente da ausência física dos investidores, num quadro de incerteza quanto à manutenção dos “cash flows” gerados pelos edifícios até final Fevereiro. Consequentemente, porque investimento e incerteza não se dão bem, um ajustamento de preços, em baixa, não será possível de evitar. A resiliência do mercado imobiliário irá estar uma vez mais evidenciada na recuperação. Não iremos estar o número de anos que estivemos no sub-prime para recuperar da situação em que nos encontramos, pelo que pós-2021 já iremos assistir a uma significativa retoma de transacções e preços (mantendo-se tudo o resto constante, isto é, não havendo outros ciclos virais mais ou menos devastadores), em linha com as projecções económicas para os Produtos nacionais das diferentes economias.

Num contexto em que a mobilidade foi fortemente afectada, os sectores mais prejudicados foram os que dela mais dependem: hotelaria e retalho. Se para a hotelaria esta situação foi uma absoluta novidade (não há memória de cadeias inteiras de um dia para o outro terem fechado), para o retalho, que já era olhado com desconfiança pelos investidores, iremos assistir a uma significativa diferenciação entre os produtos prime e os restantes, exceptuando a distribuição, que revelou uma grande resiliência, que escaldarão nas mãos de quem os tem.

Não podemos deixar de ter presente que o sector residencial foi claramente o mais resiliente. Foi para as nossas casas que fomos remetidos. Acredito que as transações de portfolios significativos de habitação para arrendar se irão começar a fazer sentir em Portugal, a exemplo do que acontece por essa Europa fora onde 20% das transacções de investimento imobiliário no primeiro trimestre de 2020 foram realizadas neste segmento. A logística, que já estava a merecer um forte carinho dos investidores, saiu claramente por cima, no que não dependeu do retalho que teve que fechar portas.

Ao abordar os escritórios lembro-me de Mark Twain, quando afirmou: “Parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas”. Por muito que se queira, as relações informais à volta das máquinas de café, dispensador de água ou das fotocopiadoras são até ver insubstituíveis. E não são as horas marcadas no Teams ou no Zooms que as dispensam. No quadro nacional, vamos assistir a uma redução da colocação de escritórios e a uma contenção da forte subida das rendas a que vínhamos a assistir. Rapidamente a falta de escritórios de qualidade irá fazer sentir-se e o mercado irá rapidamente corrigir qualquer redução de preços que venha a verificar-se.

Termino sublinhando duas ideias: vamos assistir a uma forte quebra dos indicadores da actividade económica, que não deixa de ser natural quando fomos remetidos (nós e grande parte da população mundial) para casa. A recessão decorrente destes meses de inércia, que mais se assemelham a um time out desportivo, deve ser interpretada e gerida nesta excepcional singularidade. A segunda ideia prende-se com o facto de Portugal, do ponto de vista da atracção do investimento internacional ter adicionado às muito boas características que têm vindo a ser sublinhadas ao longo dos últimos anos a da segurança sanitária, que tão boa imprensa internacional nos tem vindo a dar. Esta imprensa, que tão importante foi no passado, irá ajudar-nos a alavancar a nossa recuperação.

Felizmente que há menos crises que pessoas e que naquelas há oportunidades para estas. Assim tenhamos o discernimento e cidadania necessários a não estragar o que conquistámos até aqui, tanto nos últimos meses como nos últimos anos.

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