O secretário geral da ONU, António Guterres, já avisou que “as condições de El Niño vão deitar mais combustível na fogueira de um mundo em aquecimento. Os impactos serão ainda mais fortes, irão mais longe e atravessarão fronteiras com velocidade devastadora.” Segundo a Organização Meteorológica Mundial, há 80% de probabilidade de se verificarem condições de El Niño entre junho e agosto de 2026, motivo pelo qual a próxima estação quente está sob vigilância apertada.
El Niño tende a ocorrer em ciclos de dois a sete anos, quando as temperaturas da superfície do mar no Pacífico central e oriental sobem muito acima da média. Essa alteração nos padrões oceânicos acaba por reconfigurar a circulação atmosférica e os regimes meteorológicos à escala global. Neste caso, o ciclo reaparece após uma sequência dos anos mais quentes de que há registo, com os oceanos já em níveis de temperatura raramente vistos. O resultado é um potencial de impacto claramente reforçado. O episódio de 2023–24 contribuiu, aliás, para que 2024 fosse considerado o ano mais quente alguma vez medido.
Os efeitos fazem se sentir em toda a cadeia imobiliária. Nos edifícios residenciais, períodos prolongados de calor aumentam os riscos para a saúde, em particular entre os grupos mais vulneráveis. Nos escritórios e nos ativos logísticos, a subida da temperatura traduz se em quebras de produtividade e maior pressão sobre o funcionamento diário. O ar condicionado ajuda, mas não resolve o problema de raiz. Quanto mais o termómetro sobe, mais esforço é exigido aos sistemas de climatização, com impactos diretos no consumo de energia e nas emissões de gases com efeito de estufa, alimentando o mesmo ciclo que está na origem do risco.
As grandes cidades estão na linha da frente desta exposição. A combinação de elevada densidade populacional, construção intensiva e pouca presença de espaços verdes cria verdadeiras ilhas de calor urbanas, onde as temperaturas podem ficar 5-10 °C acima das zonas envolventes. Trata se de um desafio ambiental, mas também claramente financeiro. Um estudo da Dartmouth College concluiu que o episódio de El Niño de 1997–98 esteve associado a perdas de 5,7 biliões de dólares na economia global ao longo dos cinco anos seguintes. É por isso que investidores e ocupantes começam a incorporar de forma sistemática a exposição climática nos seus critérios de decisão. Imóveis em localizações vulneráveis ao calor extremo passam a estar sob maior escrutínio e enfrentam um risco acrescido de desvalorização.
Cidades na linha da frente da resiliência ao calor
Face a este cenário, várias cidades estão a testar soluções para mitigar o impacto do calor. Em Los Angeles e Phoenix, foram aplicados revestimentos cinzentos refletores em estradas e passeios, com resultados que apontam para reduções de até 9 °C na temperatura de superfície. Em Medellín, na Colômbia, o programa “Corredores Verdes” transformou, ao longo de três anos, várias zonas da cidade com 65 hectares de novas áreas verdes, 12 500 árvores e mais de 90 000 plantas. Nas áreas intervencionadas, as temperaturas desceram até 10 °C e a qualidade do ar melhorou de forma visível.
Para além das intervenções estruturais, também as respostas rápidas contam, sobretudo com os impactos de El Niño à porta. Medidas como a redução temporária do tráfego ou a criação de “ilhas frescas” para acolher residentes durante ondas de calor, como acontece em Paris no âmbito do sistema nacional “Heat Health Watch Warning”, ajudam a reduzir os efeitos mais imediatos dos extremos térmicos e a proteger populações em maior risco.
Para os proprietários e investidores, estas intervenções têm um efeito direto sobre o valor dos ativos. O calor excessivo acelera a degradação de materiais, encurta ciclos de manutenção e torna os edifícios menos atrativos para ocupantes e utilizadores. Em casos limite, isso pode traduzir se em retrofits de elevado custo ou em ativos que deixam de ser competitivos e se tornam, na prática, obsoletos.
As medidas ao nível individual dos edifícios são importantes, mas não chegam. É à escala da cidade que se jogam as respostas mais eficazes. Projetos de maior dimensão, coordenados entre governos locais, promotores e setor privado, são os que melhor conseguem combinar objetivos de resiliência urbana com proteção do valor imobiliário. Neste contexto, a adaptação climática deixou de ser um “extra” associado à agenda de sustentabilidade e passou a ser um componente central da preservação de valor a longo prazo.
Para lá do calor. Outros riscos climáticos em cima da mesa
El Niño não se resume ao aumento das temperaturas. Em algumas regiões, o fenómeno está associado ao agravamento do risco de cheias. Noutras, à intensificação de incêndios florestais. Muitas acabam por enfrentar uma combinação de ameaças climáticas em cascata, capaz de pôr à prova infraestruturas e serviços urbanos. Em todos estes casos, o ponto comum é claro. Cidades e ativos que investirem desde já em adaptação terão melhores condições para resistir e apresentar um desempenho superior na próxima década.
Com um novo episódio de El Niño provavelmente a aproximar se, a janela para preparar respostas está a estreitar se. Ao mesmo tempo, nunca foi tão evidente a oportunidade para o setor imobiliário assumir um papel ativo na construção de estratégias de resiliência e adaptação à escala urbana.
Notícias da Savills
O regresso do El Niño. Como a subida das temperaturas afeta a resiliência do imobiliário
À medida que o mercado imobiliário enfrenta um clima cada vez mais extremo, o regresso do El Niño eleva significativamente o risco de curto prazo para ativos em todo o mundo. Este novo episódio surge num contexto já marcado por sucessivos recordes de temperatura e por oceanos anormalmente quentes.